Oiê, prazer em te conhecer! Meu nome é Yara. E o seu?

Que bom, você acaba de encontrar meu diário de viagem.

Esse é um diário bem pessoal, mas pode abrir e folhear à vontade.

Afinal, eu tenho escrito ele para você.

 

Como assim, para mim? O que eu tenho a ver com as suas viagens?

Se você tiver com um tempinho, posso te explicar logo abaixo.

 

Mas talvez, agora você esteja com olhos apressados para saber quem eu sou e o que tem nesse diário.

 

Bom, meu nome você já sabe, é Yara.

Eu sou uma criança que já viajou 45 vezes ao redor do sol.

E você, quantas voltas já deu?

Esse é meu diário de viagem. Mas talvez o certo seria dizer que ele é meu diário de vida, já que viajar e viver são hoje, para mim, a mesma coisa.

Eu não tenho mais endereço fixo.

Vivo viajando ou viajo vivendo, com meu parceiro e minha mala de 17 quilos – que já foi maior e está para ficar menor porque acabo de descobrir que não tenho usado um terço das minhas roupas.

Nossa casa é o mundo e nossos vizinhos, a humanidade.

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Os arrozais de Bali me fazem entender, com o corpo inteiro, porque sempre quis viver por um tempo na Ásia. 

Esse é o Jatiluwih, o arrozal mais belo de Bali, considerado
 Patrimônio Cultural Mundial pela Unesco.

Esse é meu diário e ele está nascendo agora.

Para mim, agora é o começo do ano de 2020 e eu estou, faz três meses, cercada de arrozais bem verdes e do sol mais rosa, laranja e roxo que existe, na ilha de Bali - Indonésia.

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Mas, talvez na hora em que você encontrar esse diário eu já tenha partido para outro lugar.

Porque agora, como as orquídeas, eu tenho raízes aéreas.

Eu tinha muitas orquídeas na minha casa em São Paulo.

Até eu desenraizar e virar uma delas.

Agora eu chamo Yara Viraorquídea ou Yara Viramundo,

como preferir.

Mas até quando você vai viver viajando?

Não sei. Até quando fizer sentido. Pode ser seis meses, seis anos ou a vida toda. De verdade, não sei.

 

E qual o itinerário?

Depois de Bali acho que vou para o Sudeste Asiático e, de lá, não tenho como saber.

 

E como vai ser viver assim?

Olha, para ser bem honesta, eu não tenho a mínima ideia.

 

Mas isso não tá incerto demais?

Eu sei. Eu também sinto assim. Mas talvez essa seja a graça.

Acho que eu preciso te explicar melhor.

Passamos os últimos 4 anos nos preparando para esse salto.

Em 2016, desenraizei de São Paulo: desmontei minha casa e o consultório onde eu atendia há anos como terapeuta e parei de dar aulas, uma das minhas grandes paixões.  Comecei a trabalhar apenas via on-line e, como não tinha nenhuma certeza se meu plano daria certo, saí de São Paulo para cortar custos.

Não foi uma mudança fácil. Mas eu precisava ver o mundo de perto.

Morei em Ubatuba e depois em Cunha.

Lembro até hoje do frio na barriga, físico mesmo, que durou meses. 

Acordava às vezes com sensação de vertigem.

Em 2017, vendi minha casa, depois me desfiz das minhas roupas e voei, junto com meu parceiro, do Brasil para a Austrália. Parti com duas malas para o outro lado do mundo. Sem saber quanto tempo a gente ia precisar ficar por lá se preparando para poder bater asas e, daí sim, voar sem parar. 

Pular na incerteza e viver como nômade requer muito planejamento.

Uma lista interminável de detalhes para pesquisar, planejar e estruturar.

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Você já viu um mapa mundi com o Pacífico no centro?  Na Austrália vi esse aqui pela primeira vez. Sente que delícia essa mudança de perspectiva sobre o mundo.  Não sosseguei até ter um mapa assim para contemplar e planejar nossa viagem.

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Esse foi o mapa que comprei. Essa é minha mão calculando o tamanho do salto da Austrália, onde eu tava, até Bali, para onde eu fui.

Mas o salto foi bem maior que isso.

Quanto será que mede o desconhecido?

Durante esses anos, já aprendi muita coisa e hoje sei muito mais sobre o que preciso para ser nômade do que há 4 anos atrás, quando começamos a sonhar isso.

Já sei que além dos aprendizados e encantamentos, viver assim não é sempre fácil, pode ser exaustivo e cheio de desafios práticos e existenciais.

 

Mas, acima de tudo, o que aprendi é que não existe a mínima chance de eu conseguir prever como é viver essa viagem. Decidi embarcar no desconhecido e partir rumo ao imprevisível.

 

Nesse diário eu compartilho contigo minhas viagens. Os lugares que tenho conhecido, as diferentes culturas, as surpresas no caminho, os perrengues, os encontros e os desafios, ou seja, tudo o que tenho aprendido ao viver viajando.

 

Mas, antes da gente seguir juntos, acho prudente te alertar: esse diário não é só sobre viajar para cima e para baixo desse globo azul. É também sobre viajar para dentro, se ver bem de perto, e ser atravessar inteiro.

 

Alguns dias as paisagens serão deslumbrantes, os encontros transformadores e a gente vai sentir a vida se engrandecer lindamente. Em outros, o tempo vai fechar, não vai parar de chover e você vai se molhar tanto, mas tanto, que vai encolher e ficar tão apequenado que quase ninguém vai te ver. Talvez você fique invisível por um tempo.

 

Eu não tenho como saber o que vai acontecer. Mas o que posso te garantir é que, o que quer que aconteça, eu vou estar aqui nos perguntando: o que podemos aprender com isso que nos aconteceu?

E se a gente conseguir encontrar uma resposta e dar um sentido para a vida que nos tocou viver, então estaremos mais preparados para os futuros voos. E para as quedas também. Porque aprender a cair é uma arte fundamental para quem, como você e eu, se atreve a saltar.

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Esse foi um voo que dei por Ushuaia. Eu nunca consegui parar muito quieta num lugar só. Dessa vez eu estava tão movimentada que consegui voar e me fotografar voando, ao mesmo tempo. Você já conseguiu fazer isso? Acho que essa vez foi a única vez que eu consegui. Todas as outras eu caí.

Yara, eu tenho só uma última pergunta.

 

Porque você quer aprender isso tudo junto comigo?

O que muda para você compartilhar comigo o que você vem aprendendo e ainda vai aprender?

Não seria já suficiente para você viver desse jeito diferente e aprender sozinha com ele?

 

Faz muito sentido sua pergunta. Para muita gente, viver viajando e absorvendo para si os aprendizados do caminho é uma experiência completa em si mesma.

 

Nada contra, mas para mim ainda falta. Eu sou do tipo que sente como a Cora Coralina:

Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.

Ensinar, aprender e viajar sempre foram minhas grandes paixões.

E, para mim, são três modos de brincar da mesma coisa.

Viajar é aprender em movimento. E ensinar é aprender junto. 

Por isso, eu sempre que pude viajei e escrevi sobre meus aprendizados de viagem.

 

Então, eu escrevo esse diário para te contar sobre meus aprendizados em movimento, dessa e de outras viagens.

Na esperança de que as histórias que me ensinam, transformam e inspiram possam também te tocar.

Se isso acontecer, teremos aprendidos juntos.

E, então, você terá me feito viver momentos de felicidade.

É por isso que disse lá no começo: eu escrevo esse diário para você.

 

Bora seguir viagem?

Se você estiver curioso para saber quando a ideia de viver viajando começou, é só virar a página.