Diário de uma viajante

  • Yara Nico

Quando tudo começou

Updated: Mar 2, 2020

Eu estava sentada sem acreditar. Estatelada na poltrona, tudo o que eu via eram as luzinhas no teto daquele corredor enorme e escuro. Eu chorava em silêncio enquanto tentava enxergar, pela janela, uma última nuvem para me agarrar. Mas lá fora já era só escuro e tudo que eu tinha vivido nos últimos meses desaparecia na imensidão, enquanto eu cruzava o oceano.

Eu acho que foi alí, dentro de um avião em direção ao Brasil, que a ideia de viver viajando nasceu. Ela nasceu chorando numa noite de 2010.

Eu estava voltando de seis meses sabáticos em que viajei sozinha pela Europa. Sem que eu tivesse planejado, acabei vivendo a maior parte do tempo no sul da Espanha, na frente do mar mediterrâneo, numa cidade chamada Almería. Quando embarquei não imaginava que iria parar em Almería e que, nessa cidade, eu conheceria uma das maiores pesquisadoras do mundo em Terapia de Aceitação e Compromisso, a Carmen Luciano, que aprenderia muito com ela e que, ainda naquele ano, eu ajudaria a levá-la pela primeira vez para se apresentar num importante congresso no Brasil. Nos anos seguintes, eu me dedicaria, junto com amigos, a estudar e disseminar pelo Brasil os avanços experimentais, teóricos e práticos relacionados a essa terapia comportamental contemporânea. Mas essa não foi a maior surpresa da viagem. E também não foi o que fez a ideia de viver viajando nascer chorando, no voo de volta.


Para entender esse choro, uma coisa que você precisa saber sobre mim é que pensar em viver seis meses viajando sozinha, sem uma rotina pré-definida de trabalho ou de estudo me apavorava. Eu tinha muito medo de me sentir sozinha, de não saber o que fazer com tanto tempo livre, de não conseguir responder, todo o santo dia por seis meses seguidos, a uma pergunta tão simples quanto difícil: o que eu quero fazer comigo agora?

Eu tinha sido casada por 13 anos e me tornado adulta ao lado de uma pessoa incrível. Mas um casamento longo, num momento tão inicial da vida, tinha me tornado craque em pensar o tempo todo em “nós” e uma negação para saber ficar bem sozinha por algumas horas, sem que eu estivesse absorvida pelo trabalho ou estudo (o que na época eu fazia quase o tempo todo que estava acordada). No meu tempo livre, em geral, eu estava cercada de amigos. Porque eu amava estar com eles. Sempre fui uma pessoa muito sociável e extrovertida. Mas não só. Fui também uma criança que conheceu a tristeza, o terror e o medo da morte bem cedo. Eu já te conto melhor o por quê, mas te adianto que, assim como muita coisa na minha vida, isso também teve a ver com viajar. No caso da minha infância, com uma viagem forçada. Mas, esse assunto fica para quando a gente for mais íntimo.


Uma exposição viva, no Centro Pompidou. Fotografei para, quando eu estivesse triste, lembrar que eu não precisava me sentir sozinha na tristeza.

Hoje tenho certeza que tive depressão infantil e, ao embarcar para minha viagem sabática, já tinha experimentado, algumas vezes, uma tristeza profunda, sempre depois de alguma separação importante. Eu tinha muito medo de ficar só, sem distrair minha cabeça com trabalho ou estudo, e sentir baixar a névoa da angústia e ver chegar a visita de um vazio que doía fisicamente no peito e costumava não ir embora tão cedo. Já tinha precisado da ajuda de antidepressivo para conseguir me recuperar e refazer a vida.


Então, quando decidi viajar por seis meses sabáticos, absolutamente sozinha, eu senti excitação e encantamento, porque viajar sempre foi uma paixão, mas também muito, mas muito, medo. Eu nunca tinha ficado tanto tempo sozinha, sem a companhia não só de pessoas conhecidas como também de meu familiar e poderoso corrimão de trabalho ou de estudo para estruturar a passagem das horas e me deixar de pé.


Eu cheguei a fazer uma lista no celular, intitulada SÓ, de tudo o que eu podia fazer se batesse o vazio da solidão e o pânico de ser devorada por ele. Essa lista tinha as instruções mais simples: assista a um dos muitos filmes que você já salvou no computador; leia um dos mil livros ou artigos que você também já escolheu e baixou; saia para andar mesmo triste, você pode estar se esperando de volta na próxima esquina. Uma lista assim, com as ideias mais simples do que fazer comigo se eu me entristecesse de ficar só, apenas uma pessoa com muito medo de ter medo da solidão chega a fazer. Era uma boia salva-vidas que eu lançava para o meu futuro, caso o tempo fechasse e eu me encontrasse à deriva. Como se eu estivesse correndo o risco de ser invadida por um vazio tão devastador que não deixaria de pé sequer minha capacidade de lembrar das estratégias mais triviais que eu já tinha criado para não cair do buraco sem fim da solidão . Esse era o tamanho do meu medo.

Estátua no Jardim des Tuileries. Fotografei para, quando eu tivesse medo, lembrar que não sou a única a sentir medo. Tem gente que acha que não é medo o que esse homem está sentindo. Por isso eu gosto de Arte. Porque Arte faz a gente ver muitas coisas numa coisa só. E também porque ela lembra que a gente não está sozinho. A arte também já fez isso por você?

E assim eu embarquei. Com muito medo numa mão e todo meu sonho de conhecer o mundo, na outra. Eu já vinha, passinho a passinho, trilhando um caminho complexo para aprender a lidar com o medo e com o vazio. Mas aquela viagem não era um passo, era um salto gigante e eu sentia que podia cair feio.


Depois de seis meses, eu voltava chorando no avião porque, sem imaginar, eu tinha me dado o melhor presente que já ganhei na vida. Já se passaram 10 anos daquela experiência e, até hoje, eu nunca ganhei nada tão grandioso, sublime e sagrado. Arrisco dizer que foram os seis melhores meses da minha vida. E hoje eu entendo que um presente assim, que se chama “eu-completa-de-mim”, por definição só eu mesma poderia me dar.


Eu fiquei muito tempo sozinha, meses seguidos inventando diariamente o que fazer comigo. Dias de movimento. Dias parada. Dias de encontro com pessoas. Dias de passeios só comigo. Dias de ficar imóvel largada na cama, na areia ou no banco do parque só lendo. Dias de ficar mais de oito horas seguidas fotografando sozinha. Dias de museus. Dias de dança com novos amigos. Dias de ir no bar sozinha de noite. Dias de escrever tudo o que eu estava aprendendo. E, para minha total perplexidade, pela primeira vez na minha vida o monstro do vazio tenebroso não deu as caras. Mas nem um tiquinho. Nem por um segundo. Naquela viagem comigo mesma, tudo era completude.


Descobri um estado de liberdade inédito. Aprendi quem eu era, e nem imaginava ser, quando eu não precisava me preocupar com o que os outros iam pensar de mim. Criei gosto por isso e inventei a brincadeira da glória do anonimato. Experimentei como era viver em movimento, com liberdade geográfica, e me apaixonei. Me encontrei especialmente dentro dos trens. É impressionante a força daquela engrenagem para me levar de volta a mim mesma.


Enquanto eu chorava no avião, de volta para a casa e para meu antigo jeito de viver, nascia a vontade de viver viajando. De continuar a viver em movimento, completa de mim. Não mais por meses sabáticos. Não mais com data para terminar.

Pessoas nas nuvens. Fotografei também nessa viagem para me lembrar que era para lá que eu ia quando viajava.

Eu precisava viver viajando. Para ver o mundo de perto e aprender com meus próprios olhos e ouvidos. Para conhecer pessoas que vivem de jeitos tão diferentes, ouvir suas histórias e aprender com elas - até hoje o que mais me encanta em viajar. Para seguir sentindo que não sei. Porque é não saber que me coloca em movimento. Para seguir movida pela engrenagem do conhecimento, que só é vivo se faz nascer novas perguntas.

Para abrir as asas e expandir minha compreensão do mundo e da vida.

Para tornar vida as palavras da poeta Wislawa Szymborska:


“por isso valorizo tanto estas duas pequenas palavras: 'não sei'. pequenas, mas de asas poderosas que expandem nossa vida por espaços contidos em nós mesmos e espaços nos quais está suspensa nossa minúscula terra".

Mas sabe que agora que ia começar a me despedir de você me ocorreu que, talvez, a ideia de viver viajando tenha começado anos antes. Mais do que a ideia, acho que própria experiência de viver viajando começou, antes desses meses sabáticos, numa tarde tediosa em São Paulo. No momento em que inventei uma brincadeira chamada:

SE AQUI NÃO FOSSE AQUI, ONDE SERIA?


Mas essa é uma outra história. Se você quiser aprender como se brinca disso ou saber quando de fato eu passei a viver viajando, vira a página do diário aqui ó.

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