Diário de uma viajante

  • Yara Nico

Exílio: a primeira viagem

Updated: Mar 2, 2020


Minha primeira viagem aconteceu quando eu começava a existir, no sentido mais concreto possível, e ela, provavelmente, salvou minha vida. Desde então, acho que viajar continuou me salvando de muitas outras maneiras.


*** Aviso aos passageiros! Essa história do diário é como minha primeira viagem. Longa.

E cheia de acontecimentos pessoais e mundiais.

Então, apertem os cintos e fiquem confortáveis nas suas poltronas ***


~~~~~~~~~~


Esse diário nasceu no começo de 2020, perto de um arrozal muito verde, na ilha tropical de Bali. Eu também nasci numa ilha tropical, mas essa fica no outro lado do mundo. Nasci numa manhã quente, dentro de uma pequena maternidade da ilha de Cuba, uma ilha azul.



Cuba é um país que é uma ilha. Um país de uma ilha só. Dessas ilhas que andam sozinhas. Bali é rodeada por mais de 17.000 ilhas e, um dia, alguém decidiu que todas elas juntas são um país e, que o nome dele, é Indonésia. Aqui (onde estou agora escrevendo essa página) cada ilha tem sua cultura específica. Por exemplo, todo mundo aprende a falar Indonésio, que é a língua do país, mas muita gente também fala a língua da ilha em que mora. Por exemplo, na ilha de Bali as pessoas falam Indonésio e Balinês. Na ilha de Java, Indonésio e Javanês.


Na indonésia existem mais de 300 línguas e dialetos nativos. Já tentei pensar como é mais de 17.000 mundos juntos falando mais de 300 línguas ao mesmo tempo. Ainda não consegui. Isso tudo eu só aprendi quando comecei a viver em Bali, há três meses atrás. É por isso que eu viajo. Viajo para ser aprendiz.

Lá em Cuba eu também aprendi muita coisa importante.

A falar, ao mesmo tempo, a língua do Brasil, em casa, e a língua de Cuba, fora de casa; que a Midaglia, minha vizinha, é quem ia me levar para a escola para minha mãe trabalhar; que um dia, que a gente ainda não sabia quando, o Brasil ia deixar eu conhecer ele; que o mais gostoso de tudo era tomar sorvete de chocolate com o Marquito e a Marjorie, filhos da Midaglia, enquanto a gente andava juntos para a escolinha; que Brasil não era uma pessoa, era um lugar que meus pais queriam muito me apresentar; que eu não podia tomar sorvete de chocolate todos os dias; que no Brasil tinha gente que queria me conhecer, e que todas chamavam família; que a família não podia visitar a gente porque o Brasil não deixava; que eu nunca tinha conhecido o Brasil mas tinha muito medo dele; que o Brasil estava fazendo coisas ruins - isso eu aprendi não sei como; que tomar sorvete de chocolate era uma coisa bem mais gostosa que o Brasil; que em Cuba tinha um cinema com meu nome, o Cine Yara, mas que não era meu; que também tinha um grito importante com meu nome, o grito de Yara, mas que também não era meu; que cruzar a rua era muito perigoso (isso eu aprendi de sentir minha mãe apertando minha mão); que escalar o muro alto da minha escolinha também era perigoso (isso eu aprendi de sentir alguém grande me tirar de lá de cima); que muita gente grande tinha medo do Brasil e saiu correndo para Cuba; que na minha escola a gente grande de Cuba também tinha medo, eu só não sabia de quê; aprendi que ser gente pequena ou gente grande era muito perigoso – isso eu aprendi não foi de ouvir, foi de sentir junto. Depois que eu fui crescendo eu fui aprendendo não só de sentir, mas de ver e de ouvir também. E de pensar, é claro.


Em 1994, quando eu tinha 20 anos, voltei para Cuba e lá aprendi, de ver e de ouvir, tudo que eu já tinha aprendido, de sentir, nos meus primeiros 4 anos de vida.


Cheguei em Cuba. Fui para o meu hotel, peguei um telefone e liguei para o número que minha mãe tinha anotado num papel, na torcida que ele ainda fosse o mesmo. Alguém atendeu. ‘Hola!’ e, naquele instante, eu já sabia de quem era aquela voz. Contendo o choro, falei devagar para alongar bem aquele momento, o momento que eu tinha reencontrado a vizinha que virou irmã cubana da minha mãe e minha mãe cubana ‘Hola, Midaglia? Aqui és Yara. Yarita’. Eu ouvi só o silêncio e a respiração atordoada dela. Por alguns segundos. Depois o barulho de uma engolida. Depois com toda a saudade que uma voz consegue carregar, eu ouvi: ‘Yarita? No creo! Cuando te veo? Puede ser después de mañana? Porque mañana acá no hay corriente”. Dois dias depois, reencontrei Midaglia.


Ela ainda morava no mesmo apartamento, vizinho ao que morávamos. Toquei a campainha, ela abriu a porta e eu me impressionei ao encontrar aquele mesmo carinho num rosto que já não lembrava como era. Dentro daquele apartamento correu toda uma manhã e um rio, que saiu de dentro de nós duas.


Ela me mostrou a mesma sala onde eu brincava com Marquito e Marjorie, a cozinha onde ela me dava comida e depois me levou para seu quarto. Orgulhosa da sua relíquia, mostrou que estirada sobre a cama, ela ainda usava a mesma colcha que tinha sido da minha mãe. Em cima da cômoda tinha a pinça de sobrancelha que minha mãe também tinha deixado para ela, 16 anos atrás. E, do lado da pinça, um crocodilo verde – símbolo de Cuba – de borracha. Ela pegou aquele crocodilo como quem pega um passarinho e me mostrou, com especial carinho, dois buraquinhos fundos, lado a lado, na boca do crocodilo “esse era seu brinquedo favorito, e esses dois buraquinhos você que fez, de tanto morder. Eu guardei ele para você porque sabia que um dia você ia voltar”. A gente tentou, mas essa manhã a gente não conseguiu parar de chorar.


Fomos até o apartamento da frente, aquele em que morei até os 4 anos. Ela tinha pedido a chave para a moradora de agora, que também já devia ter virado irmã – isso também eu aprendi em Cuba, que você pode virar irmão de muita gente.

Dezesseis anos depois, eu tinha mudado muito.

Mas só eu.

Todos os móveis daquela casa, praticamente todos, eram os mesmos. Até abrir aquela porta eu não sabia que era possível caminhar dentro de cada milímetro do próprio passado.




Enquanto eu andava pelo museu da minha infância, descobri que a Yarita ainda morava lá. Na sala, aquela menina pequena e gorducha tava jogando um saco de açúcar inteiro no sofá todo furadinho, no banheiro ela tava lavando suas roupinhas na privada, uma ideia genial que teve para ajudar a Mamita. Todas essas histórias eu já tinha aprendido de ouvir mas, só alí, foi que eu aprendi de ver. Mas quando entrei no meu quarto e ele era ainda quase todo igual, me vi nitidamente, num clarão, jogando minha chupeta branca pela janela. Eu nunca tinha ouvido aquela história. Não tinha aprendido a ver aquela cena. Ela tinha se escondido de mim naquele quarto por todos aqueles anos. Na esperança, como a Midaglia, que um dia eu ia voltar.


Para completar o tour do passado, Midaglia propôs: “Vamos caminhando até sua escolinha? É aqui perto.” Seguimos em silêncio. Ao longo do caminho ela só falou duas coisas: “esse era o caminho que a gente fazia sempre” - disso eu não lembrava – e “Ah, alí vendia um sorvete que você adorava”- esse sabor eu nunca esqueci. Fomos chegando perto de uma casinha pequena, “lembra da sua escolinha”? Confesso que não reconheci. Lembrava só que chamava El Conejito Saltarín. Enquanto eu estranhava de longe um busto de bronze no jardim de entrada da creche - depois aprendi que aquele era José Martí, herói revolucionário cubano – percebi, com o canto do olho, que uma senhora, parada na frente da escola, olhava para mim com perplexidade. Eu foquei a imagem nela e a ouvi dizendo a única palavra que poderia me deixar atônita: “Yarita?"


Eu apertei a mão da Midaglia, incrédula que algum cubano pudesse saber quem eu era. Ela apertou de volta e com a voz modulada para me acalmar disse: “ela foi uma das suas professoras, Dona Blanca!” Eu seria incapaz de reconhecer aquela senhora! Eu saí de lá com 4 anos e estava com 20. Como ela me reconheceu?!


Cheguei perto devagarinho para me recuperar do assombro e a gente se abraçou com um carinho enorme, do tamanho do muro que eu tinha muita dúvida se de fato existia, no fundo daquela escola. Depois do nosso abraço comprido, a primeira coisa que me ouvi falando para Dona Blanca não foi ‘Como está a senhora? Como você me reconheceu? A senhora ainda dá aulas aqui?’. Não, nenhuma dessas coisas gentis e razoáveis teve chance de aparecer.

Foram todas achatadas pela minha dúvida existencial: “Dona Blanca, existe ou não, lá no fundo, um muro vermelho, bem alto, feito de tijolo vazado, tipo casa de abelha?”




Eu tinha uma imagem nítida de um muro bem alto que eu escalava. Mas eu contava desse muro para meus pais e eles não sabiam do que eu estava falando. Ela me pegou pela mão e levou para atravessar a creche. Quando chegamos no quintal, apontou para um cantinho e, lá estava ele, o muro que sempre lembrei. Meu arranha céu infinito! Mas agora ele batia abaixo do meu peito. Acho que foi o único momento daquele dia em que eu gargalhei, como um cientista que faz uma descoberta estrondosa sobre a realidade - Eureka! Essa é a maior prova empírica que eu, de fato, tenho memórias de quando tinha menos de 4 anos. Memórias reais e não construídas com base no que escutei dos adultos. É claro que o tamanho do muro também me fez gargalhar, como uma adulta que descobre a Teoria da Relatividade da infância.


E, no auge da gargalhada, Dona Blanca me mostrou algo que, diferente do muro, eu nunca nem sonhei que existisse naquele quintal.


Quer dizer, nunca soube de ver ou de ouvir. Mas lembra que eu sabia muita coisa, como toda a criança sabe, de sentir junto? Eu sabia que a gente grande de Cuba também sentia medo.

Ela apontou para o chão e disse: ”Aqui do lado é o abrigo antiaéreo. Hoje tá desativado, mas naquela época a gente não sabia se ia precisar usar”.

Aquela época era a Guerra Fria.

Com 3 anos, eu não sabia o que era uma guerra. Nem que ela me rodeava tão de perto. Que ela entrava naturalmente no meu parquinho de diversão e eu entrava para brincar dentro de um dos seus instrumentos.


Eu aprendi muitas outras coisas importantes em Cuba. Quando, com 20 anos, eu voltei para lá eu fiquei impressionada com os índices de igualdade social conquistados pela revolução cubana, e ainda visíveis em 1994. Mas também muito tocada com gritos de jovens nas ruas que pediam por liberdade. Como diz o brilhante historiador Harari, em 21 lições para o século 21, "A história do comunismo vislumbrou um mundo no qual todos os grupos estão unidos por um sistema social centralizado que garante igualdade mesmo ao preço da liberdade". O país que eu conheci com 20 anos, em muitos aspectos, não era mais aquele em que cresci. Eu saí bem reflexiva sobre as diferenças entre esses dois momentos da história de Cuba e também sobre as complexidades de um país como Cuba existir após a queda da U.S.R.S. Mas esse é assunto para outra história do diário.


Pensando no que aprendi como criança em Cuba, acho que a lição sobre solidariedade foi a que mais me marcou. Quando penso na minha infância naquela ilha, a memória mais forte é de pessoas que nem eram da minha família cuidando de mim com muito amor e entrega. E com muita alegria e música também. Aprendi também que junto com o amor tinha o medo. E que algumas pessoas que a gente amava podiam desaparecer. Como meu pai, que desapareceu quando eu tinha 1 ano. Me falavam que ele tinha ido fazer uma coisa muito importante num lugar muito longe mas, como ele nunca voltava, eu achei que ele tinha morrido.

Eu comecei a falar cedo – e, confesso, nunca mais parei. Com 1 ano de idade, eu, que falava a bem pouco tempo, consegui dizer: “Mamita, meu pai morreu”. Minha mãe, que tinha ficado com muito medo desde que viu as coisas horríveis que o Brasil tinha feito com os amigos e com o tio dela – mas isso eu ainda não sabia naquela época – ao ouvir sua filhinha pequena expressar, com palavras, que já entendia que as pessoas podiam desaparecer e morrer, ficou apavorada e me levou no médico que cuida de crianças.


O médico explicou para minha mãe do que eu precisava para não pensar que ele tinha desaparecido de morte. E ela, em desespero, obedeceu. Mandou uma carta para o meu pai. A carta demorou todo um oceano para chegar até ele. E a resposta dele chegou, pelas mãos de outra pessoa, muitos oceanos depois. Durante todo essa imensidão de tempo, meu pai, para mim, tinha morrido de forma trágica. Eu não sabia articular com palavras o que eu achava que tinha acontecido com ele. Mas, com apenas um ano de existência, eu sabia sentir que o mundo que me rodeava, que rodeava minha família, e o lugar de onde eles tinham fugido, sofria de excessos de tragédia. Numa tarde de sábado, a resposta do meu pai chegou. E ela não foi em forma de carta. A campainha de casa tocou. Era um amigo do meu pai que estava chegando de viagem. Ele tinha nas mãos um ursinho de pelúcia. Disse que meu pai tinha mandado entregar para mim. Eu abracei aquele bichinho macio, o bichinho mais fofo que eu já tinha visto, como quem se salva do afogamento. Aquele ursinho, chamei de Luisito, era meu pai vivo. Eu sabia, de sentir, que meu pai estava vivo. Eu só fui saber de ver 3 anos depois, quando viajei, pela primeira vez, para morar em outro lugar.


Acho que viajar foi como falar, comecei cedo e nunca mais consegui parar.


Quando eu tinha 4 anos, entrei numa máquina de voar com minha mãe,

cruzei um mar muito comprido e,

sem saber,

me despedi do azul e do quente.

Minha nova casa, eu ia descobrir dias depois,

era num lugar muito branco e frio. E cheio de coisas esquisitas.


Meu pai tava num lugar que chamava França mas nosso avião chegou num lugar que chamava Portugal, onde a gente passou uns dias, antes de entrar num trem que ia cruzar a Espanha em busca do meu pai. Ficamos em Portugal com brasileiros que também não podiam voltar para o Brasil. Depois de uns dias em Lisboa descobrindo como era brincar de andar de bondinho, fui com minha mãe andar de trem, pela primeira vez. Aquele trem que ia me levar até meu pai.


Logo que entrei, senti que andar de trem seria uma das minhas brincadeiras favoritas. Até hoje, o jeito que mais gosto de viajar. Mas, naquela viagem, minha brincadeira não durou muito. Na metade do caminho o trem parou. Uns homens de roupas verdes entraram e queriam ver o documento de todo mundo. Eu entendi porque eles falavam a mesma língua que eu falava em Cuba. Minha mãe não conseguia abrir a bolsa e eu vi que o medo da mão dela não deixava o zíper correr tranquilo. Quanto mais perto eles iam chegando, mais o medo ia se espalhando da mão pelo corpo todo. Pelo corpo dela e, depois, pelo meu. Ela secou a mão na calça, abriu a bolsa e pegou dois passaportes. Os homens já estavam do nosso lado. Ela entregou o passaporte dela, eles olharam. Daí pediram o meu. Ela entregou o meu e eu percebi que eles não gostaram. Pareciam bravos. Falaram que a gente tinha que sair daquele trem e ir com eles. E, só nessa hora, eu vi o tamanho de todo o medo que tinha dentro da minha mãe. Ela me apertou forte junto dela, se agarrou na cadeira do trem e disse bem alto que ela não ia descer. Eles não gostaram, seguraram no braço dela e falaram de novo, mais bravos ainda, que era para a gente obedecer e ir com eles. Daí eu vi que o medo da minha mãe também sabia ser bravo. Bravo e forte. Ela me segurou ainda mais perto dela e falou, ainda mais alto que eles, um monte de coisa que eu não entendi. Era na língua que eu entendia, mas até hoje eu não entendi o que ela falou. E acho que ela também não entendeu, até hoje, porque aqueles homens, depois de verem o medo dela gritando bem bravo para todo trem ouvir, soltaram seu braço, se afastaram e deixaram a gente ir. Muito tempo depois, a única coisa que eu entendi era que aqueles homens eram policiais do regime ditatorial do general Franco. E que, embora, o Franco tivesse morrido poucos anos antes, em 1975, o regime ditatorial que ele comandou por décadas só ia mesmo ser substituído por um regime constitucional em dezembro de 1978, alguns meses depois que atravessamos a Espanha de trem. Aprendi também que podia ser perigoso ter um passaporte cubano. Isso eu voltei a aprender algumas vezes, já adulta, vivendo no Brasil.


Chegamos, não tão sãs, mas salvas, a Paris. E um homem muito cabeludo esperava a gente na plataforma. Minha mãe disse que era meu pai, mas eu não acreditei. Meu pai tinha o cabelo bem curto. E o cabelo daquele homem era muito esquisito. Passava do ombro. Ele abaixou para falar comigo e eu vi que era ele verdade. A partir daquele dia, passei a morar num lugar muito diferente. E esquisito. No começo era tudo muito esquisito.


A primeira coisa muito esquisita que fiz foi uma carteirinha para dizer que eu era uma coisa que eu nem sabia que era.

Descobri, naquele dia, que eu era algo que tinha um nome que eu nunca tinha ouvido e nem sabia o que queria dizer: refugiada. Aprendi que era muito difícil eu entender o que era ser isso. Porque me disseram que eu sempre tinha sido isso. Mas eu não sabia como era, e o que era, não ser. Era como se eu precisasse agora de uma carteirinha para dizer que eu era uma menina de 4 anos com duas pernas e dois braços. Para que precisava de uma carteirinha para dizer isso? Essa carteirinha, para mim, não dizia nada. A única coisa que entendi é que para a gente poder ficar nesse novo lugar eu precisava fazer essa carteirinha e mostrar ela em outros lugares. Eu não entendi também porque em Cuba não precisava dessa carteirinha e agora precisava. Essa não foi a única vez que eu não entendi porque os adultos criavam tantos problemas e eram tão ruins para resolvê-los. A próxima crise que tive com os adultos foi, alguns anos depois, quando descobri que pessoas morriam de fome porque não tinham dinheiro. Eu não conseguia entender porque eles não mandavam a máquina de fazer dinheiro, que eles mesmos tinham construído, imprimir dinheiro para dar para as pessoas sem dinheiro. Gente é tão óbvio! Eu realmente ficava desesperada com a burrice dos adultos. E ainda fico.


A segunda coisa muito esquisita que me aconteceu foi ver um homem dormindo na rua. Fiquei atônita. Não entendi nada. Perguntei para minha mãe “porque ele está deitado no chão?" Eles me explicaram que ele morava na rua. Essa foi a primeira vez que eu vi essa cena e ela me marcou profundamente. Com 4 anos, minha reação imediata foi dizer: "Pero qué país de mierda es este que me trajiste, Mamita?"


Da maneira que uma criança consegue entender, eu percebi que eu estava num lugar muito distante. E que a distância entre França e Cuba era bem maior que a soma de todo o oceano que eu tinha sobrevoado de avião, mais de todo o chão que eu tinha atravessado de trem. Aquela imagem contava que eu tinha chegado em outro tipo de ficção. As pessoas que moravam alí não acreditavam na história contada pelo comunismo. Elas acreditavam na ficção liberal, que explica a história como uma luta entre liberdade e tirania, e vislumba um mundo em que todos os humanos cooperam livre e pacificamente, com controle central mínimo, mesmo ao preço da desigualdade.


Um ano depois, quando eu cheguei no Brasil, lembro nitidamente da primeira vez que vi uma criança morando na rua. Eu estava dentro do carro e ela veio vender bala no farol. Eu fiquei muito confusa de ver uma criança vendendo algo. Depois fiquei mais confusa ainda quando perguntei onde estava a mãe dela e entendi que aquela criança morava sozinha na rua. Nunca esqueci desse momento porque ele me deixou tão confusa, mas tão confusa, que doeu meu corpo. Eu encostei a cabeça na janela e chorei quieta a dor daquela criança. Eu chorava de sentir junto a dor daquela criança sozinha, na rua, sem mãe.


E entendi que o Brasil era muito diferente de qualquer outro lugar que eu já tinha visto. Aquela cena era chocante e eu nunca tinha visto nada parecido na França, em Portugal ou em Cuba. Naquele farol, eu vi uma rachadura muito funda dentro da qual aquela criança caia, com balas na mão. Esse abismo só fui conhecer no Brasil, depois que eu fiz 5 anos.


Antes disso, eu fiquei morando num lugar frio e cheio de branco. Tudo mudou muito. Não tinha mais aquela praia azul perto de casa. Agora tinha uma montanha muito gigante e uma escolinha para aprender a escorregar na neve com uns sapatos de metal bem finos e enormes. Nessa escolinha eu aprendi a cair. Não poderia supor o quanto a arte de cair me ajudaria nas próximas viagens, especialmente quando vivi por dois anos na Austrália - em 2018 e 2019. Quantos tombos eu tomei por lá. Desses que machucam não só o corpo e fazem a gente chorar por um dia todo.



Meu pai também ia numa escola nessa montanha. Mas na escola dele ensinavam a pilotar avião. Um dia ele deixou eu ver uma aula dele e entrei no avião para voar com ele dirigindo e com o professor na cadeira do lado.


O avião dele era muito esquisito. Ficava preso por uma cordinha num outro avião. Mas voava muito alto. Eu tinha medo da altura e de como ele chacoalhava. Chacoalhava tanto que eu vomitei em cima do meu casaco verde de lã todinho. Mas não falei nada para o meu pai. E ele também não viu porque eu tava sozinha no banco de trás. Meu pai tinha falado que era para eu ficar quieta. Eu obedeci.


Nesse dia eu aprendi que o medo que tinha do meu pai era maior do que meu medo de altura. Era maior do que a montanha branca que eu escorregava.



Esse lugar que eu morava se chama França e essa montanha chama Pirineus. Eu já viajei muitas vezes depois disso, mas acredita que eles continuam morando lá até hoje? Tem coisa que sabe ficar parada. Eu não.

Na viagem pela França eu aprendi muitas coisas curiosas: que tinha um velhinho que todo final do ano ia me deixar presente, no meio da madrugada, embaixo de uma árvore com bolas coloridas que a gente tinha que colocar na sala.


Ele dava presente para todos os meus amigos e eles amavam aquele velhinho. Eu não entendia porque tinha um velhinho que queria dar presente para todas as crianças. Em Cuba não tinha esse velhinho. Vivi até os 4 anos sem saber dele. Eu realmente fiquei muito intrigada com ele. Mas essa esquisitice eu adorei.


Outra coisa muito estranha que não tinha em Cuba e só fui conhecer na França era uma água de beber bem preta.


Eu não conseguia entender porque todo mundo adorava beber essa água. Mas meus novos amigos falavam que era muito gostosa e que dava cócegas na língua. Um dia tomei coragem e dei um gole com o nariz tampado. Demorou um tempo, mas foi na França que aprendi que água preta podia ser gostosa. E que o que eu tinha certeza que era horrível, até que podia ser bom.


Também aprendi a falar a língua que eles falavam lá. Aprendi rápido porque na escolinha todo mundo só falava assim. Lá não tinha mais um muro alto para escalar. Minha nova aventura era brincar de fazer malabarismo, sem trocar as bolinhas das três línguas. Até que eu era boa nessa brincadeira, mas às vezes eu deixava as três bolinhas caírem de uma só vez na mesma frase:


Ayer mis amiguitos, j'ai volé avec mon père e vomitei na minha roupa.


Num dia com muita luz, meu pais vieram me contar que eles estavam muito felizes porque, finalmente, o Brasil tinha deixado a gente voltar. E não só a gente poderia voltar. 1979 foi o ano deixou voltar todos nossos amigos brasileiros que sentiam a dor da viagem forçada. Eu nasci dentro dessa dor. Eu e muitas outras crianças que foram marcadas violentamente pela ditadura militar no Brasil. Uma geração que teve a infância roubada. Quem já conheceu a dor do exílio sabe a festa que é poder voltar para o lugar que sempre foi seu. Então nos despedimos de Pau, a cidade onde a gente morava, no Sul da França, e fomos, cheios de alegria, para Paris, de onde sairia um avião para o Brasil. Um avião muito grande para caber todos os brasileiros e mais todas as alegrias de quem voa para o começo do fim da ditadura. Um avião com toneladas de felicidade. Como eu já tinha aprendido que avião era um lugar em que a gente celebrava a vida, chegando em Paris eu e meus amiguinhos fomos logo comemorar o fim do exílio no lugar certo.


Onde está Yarita? Você já me achou aqui?

Então, com 5 anos eu viajei de novo. Voei com meus pais, agora os dois juntos, por cima daquele mesmo mar comprido - me falaram que o nome dele é Oceano Atlântico - e chegamos no famoso Brasil, junto com muita gente que, depois de anos, também voltava a poder viver em seu próprio país.


Mas mais gente ainda era o que tinha no aeroporto esperando por todos nós. Aquelas eram as pessoas mais felizes que eu já tinha visto. Elas abraçavam quem ia chegando e era tanta, mas tanta felicidade, que o abraço que elas davam chegava a colar. As pessoas saiam pulando, coladas, pelo aeroporto. Tinha bexigas. Tinha flores. Tinha música tocando. As pessoas riam e choravam. E, nossa, como elas falavam alto.


Mais uma vez eu cheguei num lugar novo e demorei para entender tudo. Não era mais frio e branco. Agora tinha avó, vô, tia, tio e prima. E aprendi que aquilo junto era a tal família que até então eu só sabia de ouvir falar. Até chegar no Brasil, família era uma coisa com duas e, agora três pessoas: minha mãe, meu pai e minha irmãzinha, que tinha acabado de nascer na França. No Brasil, família virou uma coisa muito mais grande. Mais grande que os Pirineus. E, às vezes, mais grande até que todo medo que eu já tinha sentido.

Então, quando as pessoas me perguntam quando começou a história de eu viver viajando, minha resposta final é que ela começou comigo. E, para ser bem precisa, ela começou bem no meu comecinho mesmo, antes mesmo de eu nascer em Cuba. Ela começou quando um espermatozoide do meu pai encontrou um óvulo da minha mãe. Nesse instante, eles já tinham conseguido sair vivos do Brasil e estavam no Chile.

Eles saíram do Brasil em 1972 e, no começo, foram bem felizes no Chile. Mas, em 11 de setembro de 1973 uns aviões jogaram bombas em cima do palácio presidencial La Moneda, em Santiago. Naquele dia, o Presidente Allende morreu. Começava no Chile uma ditadura militar bem parecida com aquela que tinha colocado a vida de meus pais (e de muitas outras pessoas) em risco, no Brasil. Quando eu apareci na barriga da minha mãe, um pouquinho depois desse bombardeio, meus pais já estavam fazendo de tudo para conseguirem sair vivos do Chile.



Depois deles, quer dizer, da gente, correr bastante perigo e quase não conseguir embarcar, eu fiz, dentro da barriga da minha mãe, minha primeira viagem. Uma viagem que, provavelmente, salvou minha vida.


Acho que foi naquele instante que a história de viver viajando começou. E acho que viajar continuou me salvando de muitas outras maneiras.


˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜˜

Se você chegou nessa história direto, te aconselho a ler essas duas histórias anteriores. Primeiro essa aqui. E, depois, essa. Juntas, essas três histórias, respondem a questão: "quando nasceu a ideia de viver viajando?"

1 comment

Recent Posts

See All